A Funarte verde oliva


A Fundação Nacional de Artes já foi presidida por grandes figuras da cultura brasileira, como o cartunista Ziraldo, o poeta Ferreira Gullar e o ator Sérgio Mamberti. Agora será chefiada pelo coronel Lamartine Barbosa Holanda, paraquedista, bolsonarista e fã de filmes militares.

O currículo do oficial da reserva traz informações curiosas. Ele se apresenta como especialista em logística, segurança e telecomunicações. Também diz ser ex-presidente da Câmara de Comércio Brasil-Albânia e oferece serviços de “consultor militar”.

A nomeação gerou espanto, mas o coronel informou que fez curso de roteirista e foi escolhido “por capacitação”. A um jornal, ele disse que convive com o cinema “desde pequeno”, quando visitava uma fábrica de películas no Rio Grande do Sul. “Meu pai me levava lá para enrolar e desenrolar filme”, explicou.

Lamartine caiu nas graças do bolsonarismo em 2019, ao acompanhar uma agenda do capitão e deputado estadual Castello Branco, do PSL. Os dois foram à sede da Cinemateca Brasileira e anunciaram uma mostra de filmes militares. Ao fim do vídeo, repetiram o slogan de campanha do presidente (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”) e prestaram continência a uma câmera de celular.

A performance repercutiu mal, e a mostra não saiu do papel. No mês passado, a Cinemateca fechou as portas porque o governo se recusou a renovar seu contrato de gestão. Os 51 funcionários foram demitidos, e um acervo de 250 mil rolos está em perigo. O único felizardo da história é o coronel Lamartine, que faturou a boquinha federal.

Nem na ditadura a Funarte havia sido comandada por um militar. Ao fundá-la, em 1975, o governo Geisel entregou a presidência ao escritor José Cândido de Carvalho, autor de “O coronel e o lobisomem”. Sua gestão lançou o Projeto Pixinguinha, uma joia idealizada pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho.

A nomeação do paraquedista engorda o cabide verde-oliva em Brasília. Em julho, o Tribunal de Contas da União informou que 6.157 militares já estavam pendurados em cargos civis. O governo ainda mantém dez oficiais em postos de ministro.

Lamartine inaugura a presença da farda na área cultural, uma das únicas que ainda estavam livres da influência dos quartéis. O coronel já deixou claro que insistirá na organização de uma mostra de filmes de guerra. A obsessão combina com o ideário de Bolsonaro para o setor.

No ano passado, o presidente disse que pretendia impor um “filtro” ao financiamento do cinema brasileiro. A ideia era barrar “filmes pornográficos” e incentivar produções que exaltem “heróis brasileiros”. O anúncio foi interpretado como tentativa de censura.

Bolsonaro tem a quem puxar. Em 1972, o general Medici afirmou que o filme “Independência ou morte” marcaria o início de uma “nova era” do cinema brasileiro. O elenco foi ao Planalto para uma sessão de beija-mão, na qual o presidente se comparou a Dom Pedro. Em pouco tempo, a produção chapa-branca caiu no esquecimento. Hoje o gênero mais associado à ditadura é a pornochanchada.

A febre justifica a ausência na eleição



O próprio TSE já deu a senha. Está no Plano de Segurança Sanitária para as eleições municipais. Quem não quiser votar neste ano nem morrer com os poucos reais da multa por ausência só precisa dizer que teve febre no dia do pleito. Os juizados eleitorais aceitarão a declaração como justificativa.

Eu já me acostumei com quase todas as disfuncionalidades do sistema político brasileiro, que não são poucas, mas confesso que violações à lógica inscritas na legislação ainda me incomodam. E uma das que mais me causa revolta é o voto obrigatório.

Não ignoro os argumentos sociológicos em favor do instituto. Os números mostram que, quando o sufrágio é facultativo, são os mais pobres os que mais deixam de votar, adicionando mais uma camadinha de plutocracia a um processo que já é essencialmente favorável ao "statu quo".

Esse tipo de raciocínio, porém, não me convence. Nem sei se é bom para os pobres haver mais pobres votando. O papel dos grotões em eleições têm sido o de uma força conservadora, servindo de último bastião para todos os governos, desde a Arena até o PT. E agora já se voltam para Bolsonaro.

Por gosto, tendo a dar mais peso a questões filosóficas e lógicas, e, sob esses critérios, a obrigatoriedade do voto é uma excrescência. É absurda a ideia de que o eleitor esteja apto a escolher o dirigente máximo da nação e a selecionar as pessoas que escreverão as leis do país, mas seja considerado incapaz de tomar por conta própria a decisão sobre comparecer ou não à seção eleitoral. A liberdade de decidir em quem votar tem como pré-requisito a liberdade para decidir se vai votar, como, aliás, é a regra na esmagadora maioria das democracias do planeta.

É difícil explicar por que esse fóssil autoritário segue intacto entre as instituições do país. Minha aposta é uma combinação de paternalismo difuso com o oportunismo dos políticos que se saem bem no sistema.


Está semana, fugindo a regra, vou usufruir de um excelente texto feito por um grande amigo:

Ah, que maravilha. Se não bastasse a mediocridade de negar uma pandemia que já matou mais de 125 mil pessoas, agora deram de achar que a vacina deve ser optativa.

Aí, o idiota, que não tem a menor noção das suas responsabilidades como chefe da nação, resolve se declarar contra a vacina, também contrariando uma lei que ele mesmo assinou há seis meses atrás. Isso num país miserável, de maioria de analfabetos funcionais e religiosos de crenças medievais.

Os sem-noção embarcam nas conversas dos inescrupulosos e botam a compartilhar besteiras nas redes, deturpando a ciência, séculos e séculos de estudos, o censo comum, sem a menor ideia do que se pretende com essas prosopopeias e o nefasto resultado das suas atitudes inconsequentes.

As praias lotam e os imbecis comparam com o transporte público. Este mesmo imbecil que vai à praia, acha cedo pra abrir as escolas.

O festival de incoerência que assola o país, que já não era lá essas coisas, ficou incontrolável. É guardião em porta de hospitais impedindo o trabalho da imprensa com seu grito de incivilidade. É o desinformado que aplaude sem saber que o vagabundo do guardião é pago com o seu dinheiro, para impedir que ele saiba como o seu dinheiro está sendo usado pelo prefeito sem vergonha e incompetente. Coisa de louco, bate palmas pra quem lhe sacaneia, no seu direito básico de acesso a saúde.

O pior de tudo, é que em alguns casos a ignorância tem diploma, pós graduação e até doutorado. É bilíngue e dito viajado. Conhece as vinícolas e cervejarias europeias, os shoppings de Miami, os parques de Orlando e o ano novo de Nova Iorque.

A ignorância, que na vida toda não deu a devida atenção a história, imagina que agora deu pra entender de sociologia e antropologia. A besta ainda se acha no direito de exigir patriotismo, mas sequer sabe o que é cidadania, direitos e deveres.

Saído do ventre do egoísmo, que pagava empregadas com pratos de comida e quartinho no fundo do quintal, anseia por "tempos melhores", achando que retroceder politicamente, para aqueles tempos do Merthiolate que ardia e de plena exploração social, será a solução DOS SEUS PROBLEMAS.

Aqui, neste país, com a sua maioria de miserável para pobre, de negro e pardo, onde a classe média prega a meritocracia das escolas particulares, em que o funil do privilégio os leva para gratuidade das universidades públicas, tem quem sonha com o dia em que possa empunhar um fuzil automático, sair as ruas e matar alguns manifestantes que contrariam a sua mediocridade e depois ir pra casa sem ser importunado pela polícia e dormir o sono dos justos, patrioticamente enrolado numa bandeira americana e se sentindo com o seu dever de cidadão brasileiro cumprido.

Não vamos esquecer daquela "cidadã do bem", amiga de general, que "inocentemente" levou um taco de beisebol para uma manifestação e que, ao invés de ser levada pra cadeia, foi protegida por policiais delicadamente zelosos, que minutos depois resolveram usar de cassetetes e bombas de efeito moral contra os manifestantes contrários ao governo, participantes de torcidas uniformizadas. Ou melhor, contra a turma oriunda dos quartinhos dos fundos de quintais não existe justiça, muito menos delicadeza.

Por Felicio Vitali 

A valentia de Bolsonaro


Em seus quase 30 anos de Câmara, Jair Bolsonaro só folgou com mulheres, jamais levantou a voz contra homens. Na única vez em que se viu confrontado por um, colocou o rabo entre as pernas e correu. Foi no episódio em que o ex-deputado Jean Wyllys cuspiu na sua cara, durante a sessão do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

Bolsonaro não fez nada contra a grosseria horrorosa, nem satisfação foi tomar.

Foi corajoso com Maria do Rosário, ao ofendê-la dizendo “jamais iria estuprar você porque você não merece”, empurrando-a e levantando a mão contra a ex-deputada. Foi em 2003, na época em que ele ainda não pinçava a sobrancelha. Também foi agressivo com uma jornalista, ao dizer à repórter Camila Mattoso, da “Folha de S. Paulo”, que usava o dinheiro do auxílio-moradia da Câmara “para comer gente”. Na mesma entrevista, perguntou o que Camila faria se ele dissesse que a viu na Vila Mimosa (antiga área de prostituição no Rio).

Tem mais, um video de abril de 2014, mostra ofensas do então deputado Jair Bolsonaro a uma repórter na Câmara dos Deputados, em Brasília. Nele, o parlamentar bate-boca com a jornalista Manuela Borges, até então funcionária da RedeTV!. As ofensas começaram quando o político se irritou com uma pergunta sobre a ditadura militar. Manuela, na ocasião, prometeu processar o deputado ao ser chamada de “idiota” e “ignorante”.

Depois de eleito presidente, cercado por seguranças, foi ganhando coragem e, de repente, virou o valentão do Planalto Central. Começou mandando jornalistas, homens inclusive, calar a boca, apontando o dedo, gritando e xingando. E agora, ao ameaçar dar “porrada” na boca de um repórter, chegou perto do ápice. Pode uma hora dessas partir para cima de um jornalista, mas isso só vai acontecer se os seguranças da sua escolta estiverem atentos e prontos para protegê-lo.

O Brasil que sempre teve uma excelente imagem no exterior, vive hoje, nas páginas dos mais importantes jornais do mundo, e de forma vergonhosa, vendo sua imagem ligada a um imbecil, grosseiro e truculento presidente que desprovido de argumentos que expliquem as falcatruas cometidas pela sua família, apela a violência.

Jornais britânicos, franceses, espanhóis, argentinos, americanos e outros tantos mundo a fora se fartam das imbecilidades de um presidente que não tem a menor capacidade de presidir o Brasil. Todos eles mostram ao mundo, e isso repercute nos investimentos estrangeiros no país, o quanto o Brasil vem sofrendo por ser administrado por um desequilibrado.

Preferência dos Bolsonaro - Em espécie


No começo, você sabe, tudo era dinheiro, desde uma vaca até um saco de sal.

Depois vieram as barras de ouro, que, por muito pesadas, foram convertidas em moedas e, estas, em dinheiro de papel. O qual, após longo reinado, converteu-se em cheques, cartões de crédito e, agora, transferências digitais. A história do dinheiro é a da sua progressiva redução a algo simbólico, imaterial.

Não para a família de Jair Bolsonaro. Seus membros são fiéis ao dinheiro de papel. Transações que poderiam se realizar com um clique exigem, para eles, o trânsito de um pesado volume de cédulas, de um bolso ou carteira para outro, além do trabalho de contá-las. Um pagamento de R$ 100 mil constará de mil notas de R$ 100, a serem conferidas umedecendo os dedos numa esponja ou, como eles devem fazer, lambendo-os.

Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, comprou em 2008 várias salas num centro comercial do Rio por R$ 86,7 mil em dinheiro vivo, que pediu emprestado ao pai, a um irmão e a um assessor do pai, enfiou numa sacola e levou ao caixa do banco. Em 2011, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, foi agraciada com depósitos de R$ 89 mil igualmente em espécie por seu generoso ex-motorista Fabrício Queiroz, depósitos de que Flávio, marido distraído, disse que nunca ficou sabendo.

Em 1996, Rogéria Bolsonaro, primeira mulher de Bolsonaro, comprou um apartamento em Vila Isabel, à vista e com dinheiro vivo, por R$ 95 mil. Anna Cristina Valle, segunda mulher de Bolsonaro, também comprou 14 imóveis no Rio entre 1998 e 2008, num total de R$ 5,3 milhões, boa parte em dinheiro. Diante disso só se pode elogiar Michelle Bolsonaro, atual mulher do homem —pelo menos os R$ 89 mil que caíram em sua conta entre 2011 e 2016, cortesia idem de Queiroz, foram em cheque.

Notar que esses valores, atualizados, se multiplicariam e exigiriam muito mais cédulas. Sem problema. Os Bolsonaros gostam de pegar em dinheiro.

A vacina politizada

Se tudo der certo, entre dezembro e janeiro, o Brasil poderá começar a imunizar a população, seja com a vacina de Oxford e da AstraZeneca, em parceria com a Fiocruz, seja com a vacina da Sinovac, em parceria com o Instituto Butantã.

Para que as vacinas nos tirem da crise, porém, não será necessário apenas que elas se mostrem eficazes na terceira fase dos testes clínicos, será necessário também que uma população politicamente polarizada se disponha a ser vacinada.

Depois de meses de uma extenuante política de distanciamento social, seria de se esperar uma população ansiosa para se vacinar e retomar a normalidade. Mas não é isso o que mostram estudos em diferentes países.

Uma pesquisa coordenada pela Universidade de Hamburgo mostrou que a disposição a se vacinar contra a Covid na Alemanha caiu de 70% em abril para 61% em junho (com um preocupante índice de 52% na região da Bavária). Nos Estados Unidos, pesquisa do YouGov realizada em julho mostrou que 25% dos americanos não tomariam a vacina e 28% não tinham certeza se tomariam.


Um elemento particularmente preocupante das pesquisas é como a disposição a se vacinar contra a Covid correlaciona com posições políticas. Na pesquisa do YouGov, eleitores democratas são mais propensos a se vacinar (61%) do que republicanos (45%). O índice baixa para 34% entre os que pretendem votar em Donald Trump.

A contaminação política funciona também no sentido oposto: pesquisa da Reuters/ Ipsos de maio mostrou que 36% dos americanos tenderiam a não se vacinar se a vacina fosse recomendada pelo presidente Trump.

Não temos ainda pesquisas no Brasil medindo a disposição a se vacinar contra a Covid e correlacionando essa disposição com posicionamento político e crença em boatos —mas está na hora de investigar o problema, já que há risco concreto de uma baixa adesão à vacina comprometer uma saída segura da quarentena.

Nas mídias sociais e no WhatsApp, há algumas semanas circula desinformação sobre as vacinas para a Covid com forte teor político. Boa parte desses boatos e rumores mentirosos se apoia na postura antichinesa que o bolsonarismo tem adotado.

Se a vacina desenvolvida pela Sinovac vingar, poderemos ver uma intensificação das campanhas de desinformação promovidas pelo bolsonarismo que antagoniza tanto com a China, como com o governador João Doria, responsável pelo Instituto Butantã.

Em termos muito concretos: pode ser que não cheguemos à imunidade de rebanho com uma campanha de vacinação que tenha vacina com eficácia de 75% e adesão de apenas 60% da população.

Não será punido como merece


Você acha que multa de R$ 308 e aposentadoria compulsória e vitalícia são uma punição exemplar para Eduardo Siqueira? Essa é a pena máxima prevista para o desembargador de 63 anos, reincidente nos crimes de abuso de poder, desacato a autoridade, tráfico de influência e desrespeito às regras civis. O Judiciário precisa parar de proteger os coleguinhas.

No Brasil real, desigual e injusto, em que a lei premia quem manda e não quem obedece, o desembargador terá primeiro de pagar a multa. Irrisória para os R$ 57 mil brutos que ganha por mês. Esse salário é pago por nós. Pelo contribuinte que paga impostos e cumpre a lei. O desembargador não só deu carteirada, não só chamou o guarda civil de analfabeto e não só rasgou a multa e jogou o papel no chão. Ele ameaçou: “Você vai ver com quem está se metendo”.

Com quem o guarda municipal Cícero Hilário Roza Neto, pós-graduado em direito educacional e condecorado por sua serenidade e ética, estava se metendo? Siqueira será julgado por um tribunal amigo paulista, o TJ-SP, e pelo Conselho Nacional de Justiça. O CNJ disse que terá primeiro de “apurar a conduta” do desembargador. Imagino que seja uma investigação difícil e espinhosa para os doutores, depois da explanação daquelas imagens todas.

Siqueira ganhou 15 dias para se explicar. Depois, será advertido, suspenso ou afastado? Se for aposentado pelo CNJ, receberá o salário proporcional ao tempo de carreira. Coitadinho. Tem gente dizendo que o desembargador fez tudo de propósito, rindo para a câmera do celular. Quer ser premiado com o ócio regiamente pago.

Siqueira foi execrado publicamente por uma conduta desprezível. É o vilão da semana. A sociedade se regozija, parece se saciar com essa vingança, talvez por desilusão, por saber que não adianta se meter com juiz. Vi leitor aconselhando o guarda a não tirar a máscara, porque desembargador desmascarado não perdoa. A gritaria nas redes equivale a absolvição a longo prazo. Daqui a pouco Siqueira some do noticiário porque vilão é o que não falta no Brasil.

O prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, disse que “a carteirada é de uma era que já passou, a sociedade não admite mais isso”. Desculpe, prefeito, não passou não. Sempre aconteceu e acontecerá se os juízes continuarem a ser uma casta privilegiada. Siqueira é cúmplice dessa impunidade. A arrogância do desembargador vem de uma certeza. Daqui a alguns meses, estará gastando suas economias polpudas e seu analfabetismo “en français”. Um cidadão diferenciado. O corporativismo é insidioso.

De que adianta a magistratura se mostrar chocada com a prepotência desse desembargador? O Judiciário sempre barra tentativas de se acabar com a aposentadoria compulsória como punição máxima a juízes. E o Congresso não avança nessa discussão. A gente desconfia por que. Lobbies dos magistrados. E rabo preso de alguns parlamentares.

A revista “Piauí", em levantamento no ano passado, mostrou que 58 juízes expulsos desde 2009 pelo CNJ receberam R$ 137,4 milhões em aposentadorias. Quantos aposentados pelo INSS daria para sustentar? Denúncias eram graves. Venda de sentenças para bicheiros e narcotraficantes, desvio de recursos públicos e estelionato. Entre os expulsos, havia 22 desembargadores.

Todos sabemos que essa igualdade perante a lei é balela no Brasil. Da abordagem na rua à punição, passando por instâncias e foros privilegiados, tudo é gritantemente desigual. Vamos parar de acreditar em história da carochinha. Siqueira não terá a punição que merece.

O apoio dos quartéis virou um negócio lucrativo


No “Almanaque do Exército”, ele era o coronel Jonas Madureira da Silva Filho. Na intimidade matrimonial, apenas Madu. O personagem do livro de Marques Rebelo passava os dias de pijama, no conforto da reserva remunerada. Depois do golpe, foi convocado para uma tarefa patriótica: assumir um cargo de chefia no Segal, o Serviço Geral de Abastecimento e Lubrificantes.

“O simples coronel Madureira” se passa no início da ditadura de 1964, quando os militares se apinharam na burocracia federal. Junto com os postos, veio uma penca de diárias, gratificações e mordomias. A mulher de Madu ficou eufórica: sobraria dinheiro para comprar o sonhado faqueiro de prata.

A festa da farda se repete no governo de Jair Bolsonaro. Desde a posse do capitão, o número de militares em cargos civis mais que dobrou. Saltou de 2.765 para 6.157, segundo dados do Tribunal de Contas da União.

Além de estender o cabide, o presidente engordou os contracheques. Em dezembro, o oficialato se esbaldou numa reforma da Previdência bem particular. Enquanto os paisanos sofriam perdas, os fardados ganharam reajustes de até 73%, incluindo novos penduricalhos.

Os oficiais que vão para a reserva passaram a ganhar bônus de oito salários, o dobro da regra anterior. Um dos primeiros a receber o presente foi o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque. Em maio, ele pendurou o quepe de almirante com um mimo de R$ 300 mil.

Ontem o “Estadão” revelou que o governo pretende criar mais duas gratificações exclusivas para os militares. Quem já recebe extras de R$ 1,7 mil passaria a embolsar R$ 6,9 mil. Um fabuloso aumento de 303%.

A farra mostra que o apoio dos quartéis a Bolsonaro virou um negócio lucrativo. A generosidade é tanta que transborda para os herdeiros. A filha do general Villas Bôas, ex-comandante do Exército, já ganhou dois cargos no ministério da pastora Damares. Agora o general Braga Netto, chefe da Casa Civil, deve emplacar a filha na Agência Nacional de Saúde.

Formada em relações públicas, a moça substituirá um servidor de carreira. A vaga fica no Rio, não exige concurso e paga salário de R$ 13 mil. Com uma boquinha dessas, nem o coronel Madureira ousaria sonhar.

Com rajadas impiedosas, estragos e mortes, Bolsonaro vai passar...


Louco. Lunático. Psicopata. Sociopata. Genocida. Cruel. Esdrúxulo. Inepto. Ignorante. Insensível. Rastaquera. Rude. Machista. Homofóbico. Arrogante. Tirano. Desequilibrado. Inconveniente. Chulo. Insolente. Oco. Irascível. Mentiroso. Violento. Vingativo. Manipulador. Abominável. Bizarro. Perigoso. 

Um formidável conjunto de adjetivos, listados acima, tem sido associado ao presidente do Brasil ao longo de seu mandato por pessoas de diferentes idades, níveis de instrução e origens. Essas qualidades atingiram uma diversidade espantosa durante a pandemia, em dezenas de artigos na imprensa nacional e estrangeira.

Bolsonaro é considerado hoje o pior líder do planeta no combate ao novo coronavírus. Pior do que Trump, segundo o Washington Post. Uma ameaça ambulante à vida humana e ambiental. E, portanto, à viabilidade comercial e econômica do Brasil como parceiro. Bolsonaro não apenas corta água potável para os índios ou queima a Amazônia. Ele corta nosso oxigênio cultural e educacional. É o ciclone-bomba.

Percebam que não há nesses adjetivos duros nenhum viés ideológico. Não escrevi “fascista”. São falhas sobretudo de caráter, que não definem extrema direita ou extrema esquerda. 

O mais carinhoso adjetivo atribuído a B. foi o primeiro, o “tosco”, quando ainda só falava errado e se gabava de comer pão com leite condensado. Depois, o país condescendente o chamou de populista de direita. Mas populista costuma ter apoio de 70% e não 30%. Nem sei se continua popular em casa.

Coitada da Michelle. Em cerimônia do Dia Internacional da Mulher, ela precisou parar o discurso e se dirigiu a Bolsonaro: “Psiu, eu estou falando. Posso continuar?” A primeira-dama prometia “um Brasil mais justo, seguro e inclusivo”. Imagino por que Michelle não aparece mais e, nas raras vezes, está de máscara. A pandemia mostrou a pior face de seu esposo. 

Você leu, Michelle, que o governo do Bolsonaro se aliou à Arábia Saudita para vetar o termo “educação sexual” em resolução na ONU contra a discriminação de mulheres e meninas? E que o Brasil agora se opõe a citar “saúde sexual e reprodutiva” num texto de países africanos destinado a banir a mutilação genital feminina? Essa violência indizível atinge 3 milhões de meninas por ano. Cristã, como você se sente? Ou sua leitura se resume às fake news produzidas no Palácio?

Articulistas estrangeiros dizem sentir “pena, raiva e vergonha” pelo Brasil. Mesmo sem ser brasileiros. Citando o Juan Arias, do El País: “O que aflige Bolsonaro é algo muito mais grave, é uma doença da alma, uma doença sem cura. Alardeia ser católico, evangélico e se importar mais com a Bíblia do que com a Constituição. Deveria saber que nesses textos fica evidente que todos os pecados podem ser perdoados, menos o da soberba que pressupõe que a pessoa se coloca acima de Deus. O vírus de Bolsonaro é de um gênero diferente do que já contagiou milhões. O seu é diabólico”.

Se for verdade que contraiu o novo coronavírus e não virou apenas um mercador da cloroquina ou um miliciano da medicina, Bolsonaro é inqualificável em seu comportamento na doença. Diz que “máscara é coisa de viado”, não dispensa assessores e aperta a mão de visitas constrangidas, segundo Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo. Age como homem-bomba, com a diferença de que não vai explodir junto porque não tem vocação para mártir.

Bolsonaro não é homem-bomba. Repetindo: é o ciclone-bomba. O fenômeno, com rajadas impiedosas de vento que causaram estragos e mortes, é provocado pelo choque de massas. Se você não confiar na reação do STF e do Congresso, ao menos confie nos meteorologistas. O Bolsonaro vai passar!

Ao presidente, uma pronta recuperação


Fantasia, gripezinha, resfriadinho, neurose, histeria, medinho, histórico de atleta. A pandemia do coronavírus nas palavras do presidente Bolsonaro:

26 de janeiro: “Estamos preocupados, obviamente, mas não é uma situação alarmante.”

9 de março: “Está superdimensionado o poder destruidor desse vírus.”

10 de março: “Temos no momento uma crise, uma pequena crise. No meu entender, muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propala ou propaga.”

11 de março: “Eu não sou médico, eu não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento é que outras gripes mataram mais do que essa.”

15 de março: “Não podemos entrar em uma neurose como se fosse o fim do mundo. Outros vírus mais perigosos aconteceram no passado e não tivemos essa crise toda.”

17 de março, um morto: “Esse vírus trouxe uma certa histeria.”

20 de março, 11 mortos: “Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar não, tá ok?”

24 de março, 46 mortos: “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho.”

27 de março, 92 mortos: “Alguns vão morrer? Vão morrer. Lamento, lamento. Essa é a vida.”

29 de março, 136 mortos: “Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque.”

2 de abril, 299 mortos: “Tá com medinho de pegar vírus? Tá de brincadeira.”

12 de abril, 1.223 mortos: “Parece que está começando a ir embora a questão do vírus.”

20 de abril, 2.575 mortos: “Ô cara, eu não sou coveiro, tá certo? Não sou coveiro, tá?”

28 de abril, 4.543 mortos: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre.”

2 de junho, 31.909 mortos: “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo.”

7 de julho, 66.868 mortos: “Acontece, infelizmente acontece”. 

Bolsonaro é diagnosticado com o Covid-19.

“Tá chegando a hora”. Diz Bolsonaro


O presidente receberá o troféu Homem de Visão em 2020, por sua declaração. “Tá chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar”, disse Bolsonaro. Na manhã seguinte, Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho Flávio Bolsonaro, foi levado a seu devido lugar. A prisão. Ficou escondido um ano em Atibaia, SP, na casa do advogado da família Bolsonaro, Wassef, o “Anjo”. Vizinha a uma casa que consta nos bens de Jair Bolsonaro.

Esses vizinhos do presidente...que azar. No condomínio da Barra, o vizinho incômodo era o sargento PM Ronnie Lessa, preso pelo assassinato da vereadora Marielle Franco. Agora, é o Queiroz, amigo e motorista de Flávio na Alerj, com tanta história para contar sobre a rachadinha, esquema de fraude e desvio de salários. A prisão dele e de extremistas, a quebra de sigilo de parlamentares incendiários, tudo isso aguçou a visão de Bolsonaro.

Está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar. Aos pouquinhos, com figuras periféricas. Comendo o mingau quente pelas beiradas. Pertence a essas bordas Sara Mini, ah desculpe, Giromini, que fez tudo para ser presa. Punho erguido ou tocha nas mãos, ela grita “somos a sua base, presidente” e ameaça infernizar a vida de Alexandre de Moraes, do STF, relator do inquérito das fake news. Bolsonaro, agradecido. Vocês são a minha base. Que vizinhos e que base.

“Não vou ser o primeiro a chutar o pau da barraca. Fique tranquilo”. Claro, presidente, estamos todos tranquilos na barraca e o mundo inteiro cita o Brasil como um exemplo no combate à pandemia... “Acertar o rumo da prosperidade” significa tirar dois médicos do ministério da Saúde, menosprezar quase 50 mil mortos e nomear para a pasta mais um general. Cloroquina acima de todos.

Bolsonaro tem visão. O essencial agora é um ministro das Comunicações. Essencial. Porque a comunicação de Bolsonaro anda estranha. Quanto mais ele se comunica, menos o Toffoli, o Maia e as torcidas do Corinthians e do Palmeiras acreditam que seja um democrata e que respeite as instituições.

Mas Fábio Faria, marido da Patrícia Abravanel e genro do Silvio Santos, agora ministro, vai dar um jeito nisso. Não está tenso. Patrícia já disse num programa de TV que não deixa o marido sem sexo, senão ele vai procurar fora de casa.

De tanto esticar a corda, o presidente percebe finalmente que, numa democracia, há limites – e que o teatro autoritário tem consequências. Não dá para condecorar ministro que chama juiz do Supremo de vagabundo. Não dá para estimular gangues a invadir hospitais. Não dá para dizer que “o povo armado nunca vai ser escravizado”. Não dá para apoiar tortura e censura.

Bolsonaro tem visão. E o que vê não o agrada. O Brasil decidiu buscar quem financia atos pela intervenção militar. E prender a arraia-miúda, disfarçada de apoiadores, assessores. “Quem recebe dinheiro para disseminar o ódio não é militante. Primeiro, é mercenário. (...) Depois, criminoso”, disse o ministro Barroso do STF.

“O jogo é bruto”, lamentou o senador Flávio Bolsonaro, que agiu nove vezes para barrar investigações contra ele. Flávio é amigo pessoal dos dois deputados que quebraram em 2018, aos risos e palavrões, a placa de rua com o nome de Marielle. Apoiou ambos. Parece gostar de jogo bruto.

Ai ai ai ai. Tá chegando a hora. O dia já vem raiando. Eu tenho que ir embora. Em cima da lareira do esconderijo de Queiroz, uma placa exaltava o AI-5. É, tá chegando a hora de colocar tudo no seu devido lugar.

Rouba, mas não faz!!!


Impressiona, ainda que não surpreenda, o contorcionismo dos apoiadores do governo para empacotar a corrupção como um mal menor diante da prisão de Fabrício Queiroz e da possibilidade de o primeiro-filho, o senador Flávio Bolsonaro, ter o mesmo destino.

Corrupção, confirmamos mais uma vez, nunca foi a razão para eleger um sujeito ignóbil como Jair. Fosse isso, bolsonaristas não defenderiam agora rachadinha como prática aceitável, “porque todo mundo faz”, “porque nem se compara ao que o PT ou Sérgio Cabral roubaram”. Mesmo para o padrão tupiniquim de lambe-bota de político, essa praga que nos assola, a mítica frase “rouba, mas faz” sofre aqui um duplo twist carpado.

Sabemos que a moral de parte da população é flexível. Bate palmas para tipos como Paulo Maluf, porque construiu pontes e avenidas, embora tenha enchido o bolso com milhões. Defende que partido que tira pobre da miséria não merece crítica nenhuma, apenas redenção, apesar dos comprovados pesares.

De Adhemar de Barros ao PT, o “rouba, mas faz” sempre foi exaltado. Coisa nova na vida política é a defesa apaixonada do “rouba, mas é pouco”. Não é pouco e faz falta na educação, na saúde, na segurança.

Bolsonaro tem razão quando diz que os brasileiros deveriam ser estudados. Muitos fecham o nariz e pulam no esgoto do pragmatismo político. Apoiadores do presidente têm demonstrado que podem nadar de braçada nessa imundice ao aceitar rachadinha, contratação de funcionário fantasma, inclusive pelo então deputado Jair, uso de verba pública para financiar atos privados e sites ideológicos, além dos superfaturamentos tão disseminados nos gabinetes parlamentares.

Com um ano e meio de governo, resultados desastrosos em todas as áreas, já sabemos que o apoio ao clã presidencial é irrestrito e pode evoluir até mesmo para o “rouba, e não faz nada, mas e daí?”.